quinta-feira, 16 de junho de 2005

Amigos

Um dia, quando eu era caloiro na escola, vi um miúdo da
minha turma a caminhar para casa depois da aula.
O nome dele era Kyle.
Parecia que estava a carregar os seus livros todos.
Eu pensei:
"Porque é que leva para casa todos os livros numa sexta-feira ?
Ele deve ser mesmo um marrão.
Como já tinha o meu fim-de-semana planeado (festas e um jogo de
futebol com meus amigos no sábado a tarde) encolhi os ombros e
segui o meu caminho. Conforme ia caminhando, vi um grupo de miúdos a
correr na direcção dele.
Eles atropelaram-no, arrancando-lhe todos os livros dos braços
e empurraram-no, de tal forma que ele caiu no chão.
Os seus óculos voaram, e eu vi-os aterrarem na relva a alguns metros
e onde ele estava. Ele ergueu o rosto e eu vi uma terrível tristeza nos
seus olhos.
O meu coração penalizou-se por ele. Então, corri até ele enquanto ele
gatinhava à procura dos óculos,
e pude ver lágrimas nos seus olhos.
Enquanto lhe entregava os óculos, eu disse: "Aqueles tipos são uns
parvos.
Eles deviam era arranjar uma vida própria". Ele olhou para mim e disse:
-Ei, obrigado! Havia um grande sorriso na sua face. Era um daqueles
sorrisos que realmente mostram gratidão. Eu ajudei-o a apanhar os
livros, e perguntei-lhe onde morava.
Por coincidência ele morava perto da minha casa, então eu perguntei
como é que nunca o tinha visto antes. Ele respondeu que antes
frequentava uma escola particular.
Conversámos todo o caminho de volta para casa, e carreguei-lhe os
livros.
Ele revelou-se um miúdo muito porreiro. Perguntei-lhe se queria
jogar futebol no Sábado comigo e com os meus amigos, ele disse que sim.
Ficamos juntos todo o fim-de-semana e quanto mais eu conhecia Kyle, mais
gostava dele.
E os meus amigos pensavam da mesma forma. Chegou a Segunda-Feira, e lá
estava o Kyle com aquela quantidade imensa de livros outra vez.
Parei-o e disse, "Diabos, pá, vais fazer o quê com os livros de novo?
Ele simplesmente riu e entregou-me metade dos livros.
Nos quatro anos seguintes Kyle e eu tornámo-nos melhores amigos.
Quando nos estávamos a formar começámos a pensar na faculdade. Kyle
decidiu ir para Georgetown, e eu ia para a Duke.
Eu sabia que seríamos sempre amigos, que a distância nunca seria um
problema.
Ele seria médico, e eu ia tentar uma bolsa escolar na equipa de futebol.
Kyle era o orador oficial da nossa turma.
Eu provocava-o o tempo todo por ele ser um C. D. F. Ele teve que preparar
um discurso de formatura. Eu estava super contente por não ser eu a subir ao
palanque e discursar.
No dia da Formatura eu vi Kyle. Ele estava óptimo. Era um daqueles tipos
que se encontram durante a escola. Ele estava mais encorpado e realmente tinha
uma boa aparência, mesmo usando óculos.
Ele saía com mais miúdas do que eu, e todas as raparigas o adoravam!
Às vezes eu até ficava com inveja. Hoje era um desses dias. Eu podia ver
o quanto ele estava nervoso por causa do discurso.
Então dei-lhe uma palmadinha nas costas e disse:
-Ei, rapaz, vais-te sair bem! Ele olhou para mim com aquele olhar (aquele
olhar de gratidão) e sorriu.
-Valeu, disse ele. Quando ele subiu ao oratório, limpou a garganta e
começou o discurso:
"A Formatura é uma época para agradecermos aqueles que nos ajudaram
durante estes anos duros.
Aos pais, aos professores, aos irmãos, talvez até a um treinador. Mas
principalmente aos amigos.
Eu estou aqui para lhes dizer ser um amigo para alguém é o melhor e que
se pode dar.
Eu vou-lhes contar uma história. Eu olhei para o meu amigo sem conseguir
acreditar enquanto ele contava a história sobre o primeiro dia em que nos conhecemos.
Ele tinha planeado suicidar-se naquele fim-de-semana. Contou a todos como
tinha esvaziado o seu armário na escola, para que a mãe não tivesse que
fazer isso depois de ele morrer, e estava a levar as suas coisas todas
para casa.
Ele olhou directamente no meus olhos e deu-me um pequeno sorriso.
"Felizmente eu fui salvo. O meu amigo salvou-me de fazer algo inominável".
Eu observava, com um nó na garganta, todos na plateia, enquanto
aquele rapaz popular e bonito contava a todos sobre aquele seu momento
de fraqueza. E vi a mãe e o pai dele a olharem para mim e a sorrir com
aquela mesma gratidão.
Até aquele momento eu nunca me tinha apercebido da profundidade do
sorriso que ele dirigiu naquele dia.
Nunca subestimes o poder das tuas acções. Com um pequeno gesto
podes mudar a vida de uma pessoa.
Para melhor ou para pior.
Deus coloca-nos a todos nas vidas uns dos outros para que tenhamos um
impacto um sobre o outro de alguma forma.
Procura o bem nos outros.

Amigos são anjos que nos deixam em pé quando as nossas asas têm
problemas e não se lembram de como voar.

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